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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Operário em construção

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão - 
Era ele quem os fazia 
Ele, um humilde operário, 
Um operário em construção. 
Olhou em torno: gamela 
Banco, enxerga, caldeirão 
Vidro, parede, janela 
Casa, cidade, nação! 
Tudo, tudo o que existia 
Era ele quem o fazia 
Ele, um humilde operário 
Um operário que sabia 
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento 
Não sabereis nunca o quanto 
Aquele humilde operário 
Soube naquele momento! 
Naquela casa vazia 
Que ele mesmo levantara 
Um mundo novo nascia 
De que sequer suspeitava. 
O operário emocionado 
Olhou sua própria mão 
Sua rude mão de operário 
De operário em construção 
E olhando bem para ela 
Teve um segundo a impressão 
De que não havia no mundo 
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.
Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

Poesia: Operário em construção - Vinícius de Moraes (1913-1980)
Quadros: Cândido Portinari (1903-1962)
Fotografias: Sebastião Salgado

terça-feira, 24 de maio de 2011

Dinheiro saindo pelo ladrão!


Em matéria publicada no dia de ontem em seu blog, o jornalista  Itevaldo Jr noticia investigações que estão em andamento, feitas por órgãos federais de controle e polícia federal, cujo objetivo é desmontar um esquema escandaloso a envolver deputados, ex-deputados e prefeitos maranhenses.

Em jogo, o financiamento do processo eleitoral, a administração posterior dos recursos públicos, a indicação e provável percentagem nas emendas parlamentares.

Como integrantes desse esquema e dutos por onde são canalizados os recursos para irrigar as campanhas eleitorais, bandos de agiotas.

Não é à toa que comumente se ouve falar que para campanha eleitoral dinheiro não é problema, problema é encontrar voto.

Talvez seja por isso que os prefeitos reclamam tanto da falta de recursos, só vivem com o pires na mão, viajam continuamente para Brasília, em busca de recursos, alegando a insuficiência dos repasses, de que antes de garantir as promessas de campanha, é preciso “arrumar a casa”, atividade doméstica que consome o mandato inteiro.

O crime de usura, mais conhecido como agiotagem, tipificado em lei, não condiz mais com a realidade dos fatos, pois hoje é uma das matrizes do financiamento de campanhas eleitorais, motiva a negociação de emendas parlamentares e sujeita os recursos públicos a enormes desvios, diga-se da saúde e educação principalmente, para pagar de forma criminosa um empréstimo criminoso.

Nesse sentido, a legislação precisa ser alterada, não só com o aumento significativo da pena, como instituindo mecanismos mais modernos para que a investigação e punição do crime alcancem resultados satisfatórios para a sociedade.

Dos órgãos públicos espera-se, principalmente do Ministério Público que recebe dinheiro específico para essa função, que encarem com mais seriedade o processo eleitoral, o seu desenrolar e a prestação de contas final.

As campanhas são milionárias e as prestações de contas apresentadas pelos candidatos, ao final do pleito eleitoral, não passam de obra de ficção, só crendo nelas quem acredita na existência de papai noel, mula sem cabeça e saci pererê.

Para o leitor, um alerta: campanha rica, com muitos gastos, é sinal de endividamento, a ser pago posteriormente, cuja garantia é o dinheiro público, a ser retirado de forma criminosa da saúde, da educação, do saneamento, dos salários dos servidores, para o pagamento da agiotagem.

Ou seja: é um tributo criminoso, retirado de cada política pública, para garantir o pagamento, a alegria e a felicidade do agiota.

Nada melhor do que o poema de Ezra Pound, "com a usura", para se perceber o real alcance desse crime na vida das pessoas, como a tragédia se desenvolve no dia a dia.

A seguir alguns trechos do poema:

Com a usura nenhum homem tem casa de pedra firme
de blocos bem talhados
e bem lisos
para o desenho os recobrir na face,
com a usura
nenhum homem tem um paraíso pintado na sua igreja
...
com a usura, pecado contra a natureza,
o teu pão é feito cada vez com piores farrapos
o teu pão é seco como o papel,
sem trigo da montanha, sem boa farinha
com a usura o traço torna-se grosseiro
com a usura não há fronteiras
e nenhum homem pode achar um lugar para a sua casa.
0 pedreiro fica longe da sua pedra o tecelão longe do seu ofício.
...
A usura mata a criança ainda no ventre
Ela corta a carreira aos jovens
Ela leva à cama a paralisia, ela está deitada entre a jovem desposada e o seu esposo.
A seguir, a reportagem de Itevaldo Jr e a dúvida de quem seria o ex-deputado, hoje prefeito, envolvido em esquema de agiotagem, sob a mira da Polícia Federal.

Os Cheques e os Deputados
Por Itevaldo Júnior
www.Itevaldo.com

Investigações de órgãos federais de controle e da polícia analisam a movimentação financeira das contas de 10 prefeituras maranhenses, que tinham [e têm] talões de cheques assinados pelos prefeitos em poder de deputados e de ex-deputados estaduais.

O uso de cheques das prefeituras – alguns de contas-convênio de programas federais – por parlamentares estaduais, pôs na lista de investigados cinco parlamentares com mandato e três que são ex-parlamentares, um deles é hoje prefeito.

Os cheques foram utilizados no pagamento de negócios diversos. Alguns deles negociados por agiotas que ‘financiam’ as campanhas parlamentares.

Dois parlamentares ‘guardam” consigo, talões de cheques de duas prefeituras distintas. Um deles está com todos os cheques assinados pelos dois prefeitos.

Chegou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) um ‘pedido de informações’ sobre algumas das contas dos deputados estaduais.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Dia Mundial da Juventude

Comemora-se, hoje, 30 de março, o dia mundial da Juventude, data instituída pela Organização das Nações Unidas em 1985.

Ano passado, por decisão da Assembléia Geral da ONU,  foi considerado o ano Internacional da Juventude, que visava impulsionar, entre outras coisas, a participação plena e efetiva dos jovens em todos os aspectos da sociedade.

Essa resolução convocou governos, instituições, comunidades e indivíduos de todo o mundo a dar respaldo as atividades que seriam desenvolvidas para concretizar os direitos, especificidades e complexidades da juventude.

Como fruto dessas atividades, após inúmeras discussões envolvendo todos os setores interessados, foi elaborado o Pacto pela Juventude: apostar na Juventude é investir no Brasil.

As lutas da sociedade civil alcançaram os poderes públicos brasileiros, resolvendo o parlamento brasileiro, no dia 13 de julho de 2.010, promulgar a Emenda Constitucional 65, constituindo-se num marco legal, pois reconheceu a juventude como categoria jurídica de sujeito de direitos.

Além de introduzir o termo jovem no Capítulo VII Título VIII, estendeu ao jovem, como já estava sob o mesmo abrigo a criança e o adolescente, o princípio da prioridade absoluta.

A partir da promulgação da emenda constitui-se como dever da família, da sociedade e do Estado assegurar  aos jovens o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Prevê ainda a criação, por lei específica, do estatuto da juventude, destinado a regular os direitos dos jovens, e a elaboração do plano nacional de juventude, de duração decenal, visando à articulação das várias esferas do poder público para a execução de políticas públicas.

Importante ter ciência que o estabelecimento de marcos legais cumpre um papel: reconhecer a existência, demarcar o campo de atuação, obrigar as instituições a pensar sobre e instituir deveres e direitos para que estes se efetivem plenamente, gerando dignidade para todos os jovens.

Males tipicamente de uma sociedade que abandonou por décadas parcela significativa do seu povo precisam ser erradicados, daí porque muitas lutas ainda terão que ser travadas, como forma de se respeitar a vez e a voz da juventude.

Muitos jovens são atingidos pelo crime, a droga se tornou um problema atual, preocupante e urgente, da mesma forma a formação educacional, a oportunidade de emprego, a profissionalização, a participação nas esferas de decisão.

Jovens precisam ser incentivados a participar dos destinos do seu país, do seu estado, do seu município. Animados a participar da elaboração de políticas públicas que, por determinação constitucional, não podem ser feitas sem levar em consideração as suas opiniões.

Hoje vivendo em um país com parte significativa de sua população composta de jovens, não se pode mais desconsiderar, fingir que não existem, tratar com menosprezo ou fazer pouco caso.

A hora da juventude é agora: sem pedir permissão, ocupando um espaço que lhe é devido, lutar e exigir os seus direitos!